Horário de Brasília

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21/09/26

Resultados do PIEI 2026

Resultado do PIEI 2026, Prêmio internacional de espírito inclusivo...em terceiro lugar foram 3 duplas com a nota 9: Antônio Wilson (MA) e Leni Ziliotto (MT); Sidney Ferreira (DF) e Girlane Florindo (MG); Valdeli Rodrigues (DF) e Mary Paiva (DF). Em segundo lugar com a nota 9,1 ficou Margareth (DF) e Beti Rhoden (EU). E em primeiro lugar com 9,2 ficou Vanessa (DF) e Celinha Machado (SP). Em breve, conhecerão os textos no "Programa Encontro Marcado com a Cultura" com Arleni Batista (RJ), uma das 5 juradas. As outras juradas são : Maria Inês (SC), Negra Luz/Claudia Almeida (ES), Renata Barcelos (RJ) e Mara Parrela (Holanda), todas membros correspondentes da AIAB.

21 Fórum Brasília, capital das leituras

Posses na AIAB de membros brneméritos

Evento na Biblioteca Comunitária de Taguatinga

17/09/26

Textos do PIEI 2026 - Vivências ou memórias que constroem a cultura inclusiva no DF

Prêmio Internacional de Espírito Inclusivo, uma ação do Projeto Itinerante de Espírito Inclusivo Produções do 6º PIEI de duplas formadas de uma pessoa com deficiência visual e uma enxergante com o tema: Vivências e Memórias que constroem a Cultura Inclusiva no Distrito Federal. 1.) Dupla Ednaldo e Adriana - Acessibilidade transformando memórias - Hoje sou casado com uma pessoa que também é deficiente visual e seguimos na luta diária para superar as adversidades e fazer o melhor não apenas por nós, mas também pelos amigos com deficiência que compartilham dessa caminhada. Uma das experiências mais marcantes foi participar do grupo de teatro e do projeto Olho no Lance. Ali pudemos mostrar nossa arte e compartilhar momentos especiais com os amigos e a comunidade. Estar no palco, expressar sentimentos e viver a cultura de forma acessível foi transformador. A cultura faz parte do nosso cotidiano. Gostamos de frequentar teatros e shows com acessibilidade, onde a audiodescrição nos permite apreciar cada detalhe dos espetáculos e nos faz sentir plenamente incluídos. Um momento inesquecível foi assistir ao show de Paul McCartney, em Brasília. Eu jamais imaginei viver essa experiência. Eu e a Zozi, junto com outros colegas com deficiência visual, tivemos esse privilégio. Graças à audiodescrição, pudemos acompanhar cada instante daquele espetáculo. Logo no início, recebemos os aparelhos de audiodescrição. A professora Clarisse, diretora do nosso grupo teatral, descrevia o palco, os telões, os instrumentos, as roupas, os movimentos de Paul McCartney, enquanto ele tocava guitarra, piano, bateria e cantava, além da quantidade aproximada de pessoas presentes. A audiodescrição por rádio foi essencial, pois não atrapalhava o espetáculo e nos permitia sentir que fazíamos parte daquele momento, junto com todos os demais. Nossa vida social e cultural é intensa, especialmente nos eventos da AIAB, que proporcionam leitura, convivência e reflexão. Cada encontro fortalece amizades e amplia nossos aprendizados. Por isso, posso dizer que a AIAB tem grande valor em nossas vidas. Mais do que atividades culturais, encontramos um espaço de pertencimento, onde a inclusão se transforma em convivência, amizade e crescimento. 2) Dupla Vanessa e Celinha - Brasília que eu vejo sem ver! Brasília, pra mim, não é só concreto e céu aberto. É palco, som, cheiro de pipoca com guaraná. E eu vejo do meu jeito. Já entrei no CCBB e saí em 1984. Não, não viajei no tempo. Assisti à adaptação de Orwell e, por horas, o Grande Irmão quase falou comigo. Teatro interativo: atores se aproximavam, provocavam, arrancavam reações. Eu respondia com o ouvido, a imaginação e o riso. Também passei por noites de cabaré. Luz baixa, música alta, personagens flertando com a plateia. E eu lá, devolvendo cada piscadela com a imaginação. Show? Já vivi vários. No Mané Garrincha, me emocionei com Paul McCartney e Andrea Bocelli. Na Casa do Choro, ouvi cada acorde ganhar forma pela audiodescrição. O violão respirava, o cavaquinho conversava. Arte boa a gente revisita. Museus e bibliotecas viram casas quando ganham voz. A Trilha da Inclusão passa por Brasília todo ano, e eu caminho junto. Na Esplanada, shows reservam espaço para as pessoas com deficiência. Camarote sem frescura: som de frente, segurança para circular, liberdade para sentir. Teatro? Perdi a conta. A última foi no SESC Taguatinga. Dois idosos contavam sua história de amor e rotina. Eu ria, me emocionava, me reconhecia neles. No final, falei com os artistas. Antes do cumprimento, a audiodescrição já tinha nos apresentado. Restaurante também é cultura. Cardápio em Braile. Garçom preparado para atender com autonomia e respeito. Comida quente, prato descrito. Não é gentileza. É direito servido à mesa. E o cinema... Fui ver Trolls 3 com audiodescrição. Saí querendo dançar no shopping, com cheiro de pipoca e alegria. Ouvi as cores, as purpurinas, os passos. Entendi cada cena sem ver a tela. Muita gente diz que Brasília é pra se ver. Eu digo que é pra se sentir. Com acessibilidade, não só participo da vida cultural: ocupo meu lugar nela. A próxima peça, show, filme... tudo já tem lugar reservado. O ingresso? Carrego na alma. 3) Dupla Larissa e Cecy - Da fragilidade à vitória Nasci em Brasília, mais precisamente no hospital do Gama, no dia 6 de outubro de 1988, trazendo comigo a força silenciosa de quem veio ao mundo para resistir. Eu era uma menina pequena, morena e gordinha. Em nosso lar humilde, o amor era o único bem que nunca faltava. A minha infância não foi desenhada nos parques, mas sim nos corredores frios dos hospitais. Enquanto as crianças da minha idade se desenvolviam normalmente, meu desenvolvimento seguiu um ritmo próprio, moldado pelas limitações do meu corpo e pela vigilância constante da saúde. Meus aniversários ganharam uma marca muito particular: o topo do bolo ganhava velas, mas a massa era sempre diet por conta da diabetes. Aos 20 anos, o destino me impôs um dos meus maiores testes: a perda parcial da visão. No exato momento em que a juventude convidava a desbravar o mundo, meus olhos físicos silenciaram e quase se apagaram. Entretanto, aprendi a enxergar com a alma, a tatear a realidade com a intuição e a ler o mundo através da persistência. O desejo de estudar e aprender sempre mais ardeu forte em mim, mas o caminho até a escola impunha barreiras quase intransponíveis. A saúde era muito frágil, e por isso transformou a minha busca pelo conhecimento em uma verdadeira batalha. A fase mais dura da minha jornada foi marcada pelas poltronas da hemodiálise, onde via o tempo passar de forma lenta, mas a grande virada aconteceu com o transplante, o momento em que a vida me deu uma nova chance e permitiu que eu reescrevesse meu próprio destino. Contrariando todas as estatísticas, aos 33 anos, cruzei as portas da faculdade. Entrar no ensino superior nessa etapa da vida não foi apenas uma escolha acadêmica, foi um ato de rebeldia contra as minhas próprias limitações físicas e históricas. Aos 35 anos, levantei o meu diploma. Os anos de graduação e os de pós-graduações concentraram uma vida inteira de superações. A formatura não simbolizou apenas a conclusão de um curso, mas a vitória definitiva sobre a escassez da infância, a penumbra da perda visual e os desafios da saúde. Eu me tornei uma mulher pronta para inspirar o mundo através da minha própria vida. 4.Dupla Geralda e Adriana - Ao lado da Inclusão Meu momento mais importante em relação à inclusão foi quando saí da escola para deficientes visuais e passei a estudar em uma escola regular. Quando eu tinha sete anos, ainda não havia uma escola para deficientes visuais em Brasília. Como minha irmã mais velha estudava em Uberaba, fui para lá também. Eu permanecia o ano inteiro sem ver meus pais, pois eles não tinham condições de nos visitar durante esse período. Estudei do pré até a segunda série nessa escola. Apesar da distância da família, convivia muito bem com os amigos. Na terceira série, comecei a estudar na escola regular, contando com o apoio de uma professora que transcrevia as minhas provas. Pouco antes de retornarmos para Uberaba, minha mãe descobriu que havia uma escola para deficientes visuais em Brasília. Fomos os primeiros alunos matriculados nela. Fiquei muito feliz, pois frequentava essa escola especializada e, ao mesmo tempo, estudava na escola regular, convivendo com os demais alunos. Essa experiência foi maravilhosa. Eu fazia algumas travessuras, como apagar os cadernos dos colegas com a borracha, e todos me acolhiam com carinho. Amigos, professores e colegas sempre me trataram com respeito. Conviver com pessoas videntes e com outras pessoas com deficiência foi um grande aprendizado. A inclusão me mostrou que podemos compartilhar os mesmos espaços, aprender juntos e construir amizades sem barreiras. Acredito que a inclusão abre portas, fortalece a autoestima e transforma vidas. Estudar, conversar e participar das mesmas atividades faz com que nos sintamos parte da sociedade. Aprendi que podemos conviver com qualquer pessoa, respeitando as diferenças. Essa oportunidade marcou minha vida e me ensinou que a convivência é uma das maiores riquezas que podemos experimentar. 5.Dupla Valdevi e Leopoldina - Vivências que constroem a cultura inclusiva no DF Ele é PCDV, músico, natural da Bahia, da cidade Remanso, nascido em junho de 1968. Veio para Brasília aos 3 anos de idade para fazer uma cirurgia no olho e permaneceu até aos 6 anos de idade. Retornou para sua cidade natal e ficou até aos 12 anos de idade, dali se deslocou para Salvador – BA. No Instituto de Cegos da Bahia, permaneceu ali até aos 18 anos. Trabalhou em Bandas de Música, em Emissoras de Rádios. Sempre gostou de Política, declara ele. Cursou a faculdade de Pedagogia, mas não atua. Em 1994, retornou para Brasília e prestou concurso na Terracap, tomou posse em janeiro de 1998, no Governo do Cristóvam, onde trabalha até hoje. Cursou uma Pós- graduação em Psicopedagogia Clínica e tem interesse em se especializar em Saúde Mental 60 +. Residente na Região Administrativa de Brazlândia – DF. É tecladista, compositor e tem um Canal na Internet – Youtube - CEGO COM VISÃO. TOQUE DE BENGALAS Amigos do Braille, amigos dos amigos do livro Amigos de mãos dadas, de bengalas coloridas Bengalas brancas, verdes, que sambam nas avenidas Ao Sinal Sonoro, Pandeiro, Violão, Violino, Ukulelê e Bateria; Pessoas que escrevem com a alma e leem com as mãos Enxergam de perto e de longe com o coração Verdadeiros artistas da criação, que compartilham A Mesa Redonda na Biblioteca Braille Dorina Nowill; 6. Dupla Genes e Carla - Caminhos da Inclusão, Arte e Autonomia: Uma trajetória de memórias, aprendizados e gratidão aos mestres da vida A existência humana é influenciada pelas experiências e pessoas que encontramos. Agradecer e celebrar essas trajetórias é importante. A vida foi generosa comigo por encontrar educadores que transformaram minha visão de mundo e promoveram autonomia e inclusão social. O aprendizado foi uma conquista significativa para a independência de pessoas com deficiência, graças ao diálogo com profissionais empáticos. O aprendizado prático e o acesso ao conhecimento digital foram essenciais na minha formação. O professor Walter Júnior, um docente cego, mostrou que a tecnologia pode promover independência e domínio técnico, transformando obstáculos em oportunidades de aprendizagem e liberdade de expressão. A professora Libânia também me ajudou a organizar atividades diárias, aumentando minha autonomia, segurança e dignidade para viajar pelo mundo. Aos 13 anos, fui aceito na Escola de Música de Brasília, marcando um momento importante na minha vida. Lá, aprendi música e vivi novas experiências sociais e emocionais, conhecendo pessoas que deixaram forte impressão em mim. Destaco a Professora Dolores Tomé, que me apresentou ao Braille musical e destacou-se por sua dedicação ao ensino, permitindo-me interpretar música de forma mais rica. Também tive a oportunidade de aprender com a professora Moema Craveiro Campos, minha mestre em piano popular, que me ensinou sobre linguagem musical, harmonia, liberdade de criação e a importância de ouvir com o coração, entendendo a música como uma forma de comunicação e convivência humana. O autor agradece a várias pessoas, incluindo professores e educadores, que foram fundamentais para seu processo de integração, socialização e compreensão do mundo. Destaca a importância das narrativas dessas pessoas para promoverem inclusão e uma comunidade mais justa, especialmente ressaltando a influência marcante da professora Glorinha, que lhe ajudou a entender o mundo e a conquistar autonomia durante sua juventude. 7. Dupla Leonardo e Lucia - Ponto a ponto Há lembranças da infância que só fazem sentido anos depois. Na minha escola havia uma pequena sala de recursos. Enquanto as outras crianças passavam apressadas pelo corredor, eu diminuía o passo e olhava para dentro. Via livros diferentes, folhas cobertas por pequenos pontos em relevo, máquinas fazendo um barulho curioso e alunos que liam com as mãos. Não havia motivo para aquela sala despertar a minha atenção. Mas despertava. Sem que eu soubesse, a vida já marcava, ponto a ponto, o caminho que meus dedos e coração ainda percorreriam. Algum tempo depois, perdi a visão. De repente, aquele lugar que eu observava apenas por curiosidade tornou-se o espaço onde reencontrei a esperança. Ali fui acolhido pela professora itinerante Gislene. Ela não me devolveu a visão; fez-me enxergar que eu continuava sendo o mesmo menino, cheio de sonhos, apenas aprendendo uma nova forma de ler o mundo. Cada livro parecia dizer, em silêncio: “Você vai conseguir.” E consegui. Os anos passaram. Estudei, cresci e, quando comecei minha vida profissional, recebi um presente que jamais poderia imaginar. Passei a trabalhar na biblioteca Braille. Naquela época, os livros ainda eram produzidos nas antigas máquinas de datilografia Braille. Eram elas que davam forma às páginas que chegavam às mãos dos estudantes, exatamente como minha professora Gislene e tantos profissionais das salas de recursos haviam feito para mim durante a infância. Pouco tempo depois, a biblioteca recebeu a doação de sua primeira impressora Braille. Coube a mim aprender a operá-la. Às vezes penso que a vida gosta dessas delicadas ironias: o menino que um dia esperava ansiosamente pelos livros em Braille tornou-se a pessoa responsável por produzir muitos deles para outras crianças. A impressora permitiu que as professoras das salas de recursos dedicassem mais tempo ao que nenhuma tecnologia substitui: acolher, ensinar, incentivar e transformar vidas. Cada livro, apostila ou prova levava consigo a gratidão de alguém que jamais esqueceu o caminho percorrido. Naquele momento compreendi que a inclusão nunca termina em quem a recebe. Hoje percebo que aquela sala despertou mais que a curiosidade de um menino. Ela, silenciosamente, esperava por ele. E, sem imaginar, aquele menino voltaria muitos anos depois para manter acesa a mesma luz que um dia iluminou o seu próprio caminho. 8. Dupla Margareth e Beti - Cultura e Acessibilidade Minha vida como pessoa com deficiência visual me surpreende. Surpreende pelo aprendizado, pelo entendimento e por novas formas de perceber e vivenciar o mundo. A partir dessas vivências, aceitei o convite para escrever sobre cultura e acessibilidade. Se cultura é representação de símbolos, experiências e daquilo que manifestamos no mundo, ela vai muito além da arte. Para esta reflexão, escolho a arte, entendendo a tríade educação, esporte e cultura como caminhos que nos permitem respirar, nos afirmar e seguir em frente. A arte sempre fez parte da minha caminhada. Surpreende-me que, embora saibamos que ela salva, reafirma espaços e existências, ainda não seja plenamente acessível. A arte está disponível, mas está acessível às pessoas com deficiência visual? A cultura da arte é inclusiva? Artistas são celebrados além ou apesar de sua deficiência? Precisam estar ao lado de pessoas sem deficiência para terem sua arte validada? O que deve estar sob os holofotes: a arte ou a deficiência? São perguntas que podem causar desconforto. Mas será que lidar com cultura não é também provocar desconfortos e reflexões? Como pessoa com deficiência visual, pergunto-me: meu desconforto deve estar na experiência de vivenciar a arte e nas reflexões que provoca ou no ambiente e na estrutura oferecidos para acessá-la? Uma visita a um museu, ao cinema ou ao teatro proporciona a mesma experiência para pessoas com e sem deficiência? Como essas experiências são pensadas? Por quem? Quem as financia? Se a arte salva e permite que pessoas com deficiência se manifestem e se afirmem no mundo, por que os espaços culturais ainda não são plenamente acessíveis? Talvez seja a cultura, em seu sentido mais amplo, que precise ser questionada diuturnamente para que a inclusão, enfim, aconteça. 9ª Dupla Dalva e Ângela – Um novo olhar Ao conseguir decifrar o universo legal, em 1987, eu já sonhava com um mundo acessível, em que a inclusão social imperasse, amplamente. De lá para cá, mesmo com a morosidade e o descaso das autoridades, algumas caminhadas através da nossa voz, a voz das pessoas com alguma deficiência, muito foi feito, porém a trajetória é longa... e temos que continuar sonhando, para tentar pôr em prática essa realidade tão esperada. Fico pensando em dois termos: Inclusão e Expansão, mas acho que Expansão seria o nome mais apropriado. Talvez, após uma boa briga sensata, cheguemos lá… Temor eu tenho por perceber que os governantes não enxergam nossas dificuldades e querem tirar o que já conquistamos. Moramos em Brasília, no centro do poder, e não vejo nossas necessidades serem supridas. Preocupo-me, pois sou cega de baixa visão, tenho dificuldade de locomoção, e, agora, estou idosa. Um novo olhar se faz necessário para todos nós nos tornarmos mais livres… 10 – Dupla Gláucia e Vanísia - Memórias e caminhos que incluem Há memórias que permanecem mesmo quando a vida muda o modo de enxergar o mundo. Uma pessoa com deficiência visual, natural de Taguatinga- DF, estudou na rede pública e conhece bem a cidade. Durante 40 anos teve sua visão, formou-se, casou-se, teve filhos, dirigiu e fez tudo isso sabendo exatamente para onde ir e vir, com total segurança. Atualmente, como pessoa com deficiência visual, precisou compreender que o mapeamento de toda a cidade de Taguatinga estava guardado em sua memória. Hoje, entende que, com a deficiência visual, precisa mapear novamente os ambientes. Ao usar a bengala, tateia ruas, avenidas e calçadas. Em muitos momentos, vêm à memória exatamente como eram, quais mudanças ocorreram e algumas adaptações que receberam. Algumas são acessíveis, outras não, mas sua memória jamais se apagou. Todos os dias, busca na memória de longo prazo tudo o que ficou registrado para viver com mais qualidade de vida. Do outro lado desse encontro, uma educadora inclusiva guarda na memória uma história feita de encontros e muitos aprendizados. Desde que começou a atuar como educadora e formadora, compreendeu que incluir é, antes de tudo, reconhecer o outro, respeitar suas singularidades e acreditar em suas possibilidades. Ao participar do Brasília Acessível/2026, teve a oportunidade de formar uma dupla com uma pessoa com deficiência visual. Juntas, escreveram suas memórias: uma, lembrando do tempo em que enxergava; a outra, revisitando sua caminhada na inclusão. Hoje, como escritora inclusiva, formadora e integrante da Academia Inclusiva de Autores Brasilienses, essa experiência ganhou um significado ainda maior. Naquele encontro, as memórias voltaram como páginas, entrelaçando histórias, caminhos e aprendizagens. Afinal, construir uma cultura inclusiva também é isso: reconhecer memórias, abrir caminhos e transformar encontros em possibilidades. 11. Dupla Adriana e Dora – Passeios inesquecíveis Saí para uma visita e me senti muito feliz, pois iríamos à Câmara dos Deputados do Distrito Federal. Quem organizou a visita foi a Sociedade Bíblica e os convidados foram as pessoas com deficiência visual. Lugar agradável e importante para as decisões do país, pelos eleitos do povo. Ali é nossa casa. Houve a áudio descrição para nós, éramos umas trinta pessoas. Alguns com baixa visão e outros totalmente cegos, mas todos em busca de conhecimentos. Caminhamos pelos salões Negro, Verde e Azul. Visitamos, também, o plenário onde acontecem as sessões parlamentares e as votações. Tocamos com as mãos algumas esculturas que ornamentavam os salões. Foi uma experiência muito rica. Contaram-nos sobre a história da senadora da República que é tetraplégica. Ela tem acessibilidade ao local e usa uma cadeira de rodas especial para se deslocar. Ela é Mara Cristina Gabrilli. Em 2018, ela foi eleita para representar o Brasil no comitê sobre direitos das pessoas com deficiência da ONU. Foi a primeira brasileira a ocupar o cargo. Foi uma experiência muito importante para nós. Fomos e continuaremos elegendo os que cuidarão do povo do Brasil. Continuarei falando de passeio nessas minhas memórias, desta vez falando de um passeio de barco no Lago Norte, só para as pessoas com deficiência visual, onde havia mais ou menos trinta pessoas. Alguns enxergantes também, mas poucos para darem ajuda aos deficientes visuais a contento. Houve passeio de jetski. Preferi ficar apenas no barco. O passeio durou umas duas horas onde éramos alguns de baixa visão e outros com cegueira total. Lanchamos durante o passeio e realizamos um sonho de estarmos ali e jamais iremos nos esquecer desse dia. Para completar meus relatos sobre Vivências e Memórias, falando agora de uma noite emocionante e inesquecível pois foi a colação de grau do meu filho, no Clube do Exército. Momento que jamais será esquecido e sempre será recordado. Ficamos em lugar privilegiado junto a outros deficientes visuais que foram conosco para essa noite tão especial. Ao voltarmos para casa, comemoramos com comes e bebes e muita alegria. Meu filho é deficiente visual total, mas pode usufruir de tudo que tem direito. 12. Dupla Zozimeire e Osmar - Um lugar de aprendizado Ao chegar a Brasília, em 2003, comecei a vivenciar minha caminhada como pessoa com deficiência visual. Com o apoio de algumas pessoas, cheguei ao CEDV — Centro de Ensino Especializado —, onde iniciei meus aprendizados em Braille, na arte e na cultura. Também foi nesse período que cheguei à Biblioteca Braille de Taguatinga, onde começou uma nova história na minha vida. Quando cheguei, não sabia ler nem escrever. Ali fui alfabetizada, incentivada à leitura e acolhida com muito amor e carinho por algumas de suas fundadoras e por pessoas que foram essenciais na minha trajetória. A Biblioteca foi muito mais do que um espaço de aprendizagem: ensinou-me a conviver, interagir e me incluir junto aos meus amigos. Foi através da Biblioteca Braille que conheci novas possibilidades e tive acesso a conhecimentos que me levaram ao ensino superior. Conheci o curso de Serviço Social, que se tornou um novo caminho para minha vida, até chegar à tão sonhada formatura. Em 2015, comecei a participar do projeto De Olho no Lance, que teve grande importância na minha trajetória. A partir dele, novos caminhos se abriram. Passei a atuar no teatro e tive a oportunidade de trabalhar como consultora e mobilizadora, além de desenvolver meu trabalho como massoterapeuta. Nos shows e eventos, também pude contribuir com ações de acessibilidade e audiodescrição, utilizando recursos de rádio para tornar essas experiências mais acessíveis às pessoas com deficiência visual. Todas essas vivências me permitiram desenvolver novas habilidades e ocupar espaços na educação, na arte, na cultura e na promoção da acessibilidade. A Biblioteca Braille de Taguatinga foi um lugar de aprendizado, acolhimento, inclusão e transformação na minha vida. Muito obrigada por tudo. 13. Dupla Antonio Wilson e Leni - DISTRITO FEDERAL INCLUSIVO A história da humanidade é preservada de diversas formas, como em monumentos, documentos e nas ações de pessoas que transformam o dia a dia. No Distrito Federal, a inclusão está sendo construída por pessoas e por entidades que procuram substituir barreiras por oportunidades. Eu me senti feliz, com grande emoção, ao acompanhar uma pessoa com deficiência visual percorrendo, com segurança, um caminho que até pouco tempo era impossível pela falta de acessibilidade. O som da bengala e a confiança nos passos me fizeram compreender que a limitação está sim na ausência da visão, mas principalmente está nas barreiras criadas pela sociedade. Minha esperança cresce quando vejo pessoas com deficiência visual circulando com autonomia, acompanhadas por um cão-guia ou meio da percepção tátil já instalada em algumas calçadas e em alguns estabelecimentos. Em Brasília há instituições dedicadas à educação e à defesa dos direitos das pessoas com deficiência visual, e são referência nessa transformação, porque vão além do discurso. São espaços onde a pessoa com deficiência encontra suporte para circular com autonomia. Lembro-me do tempo em que muitas escolas ainda não ofereciam acessibilidade, enquanto famílias lutavam por atendimento especializado e educadores reinventavam práticas inclusivas. Um caminho construído, mesmo com dificuldades, pela perseverança de pessoas responsáveis e visionárias. Ainda existem desafios estruturais, comunicacionais e atitudinais. Contudo, o Distrito Federal reafirma seu compromisso com uma sociedade em que respeito, acessibilidade e participação sejam direitos de todos, expressões legítimas da dignidade humana, e não um luxo. Um direito. 14. Dupla Maria e Sharlene – Inclusão e Cidadania Devo confessar que, apesar dos avanços ao falarmos sobre a inclusão vivida no dia a dia, precisamos avançar ainda muito, muito mais. Vejamos! Já pensou ir a um consultório, a uma farmácia ou a qualquer outro estabelecimento, acompanhada por alguém, e a pessoa do outro lado do balcão se dirigir diretamente a você, sendo você a pessoa a ser atendida? Parece óbvio, não é? Mas, geralmente, não é isso que acontece. Nesse caso, vale a pena destacar as exceções. Aliás, sempre. Devagarinho, pontualmente e, felizmente, também ocorre o contrário. Direcionando-se diretamente a mim, pessoa com deficiência visual, a atendente pergunta: — Qual seu CPF? Em outro momento: — Como posso te ajudar? Pode me dar seus dados, por gentileza? — Ufa! Ela me enxergou! - internamente digo. Outra situação importante... Você vai a um restaurante e... opa! — Temos cardápio em Braille e versão ampliada. Você gostaria? — Ótimo! Eu gostaria de escolher algo. Vou olhar as opções. Obrigada! — respondo. É difícil colocar em palavras o que sinto quando isso acontece. Eu folheio o cardápio, viro as páginas... Aquele momento é meu! E, quando se trata de ler os livros voltados para o público infantil? A Academia Inclusiva de Autores Brasilienses - AIAB tem um tanto assim de escritores e escritoras que publicam livros em formatos acessíveis. Quantas crianças (e adultos) poderão ler, sentir o cheiro do livro e interagir com as palavras! Estão ali, juntos, a criança (o adulto) e o livro. Tão bom se sentir pertencente! Sem olhar de pesar. Sem olhar de caridade. Sem olhar para ganhar ibope, mas, sobretudo, olhar de cidadania. 15. Dupla André e Renata - Memórias vividas Entre memórias que o tempo transformou em vivências. Tudo isso só foi possível porque um menino quando colocado de castigo sempre ao lado de uma radiola antiga repleta de botões e potenciômetros, que tocava somente música clássica, ouvia tudo com alívio e muito prazer, cada uma mais bela que a outra, Ali ele tinha um caixote magnifico de madeira que o fazia sonhar, se imaginando um dia tocando um belo instrumento musical. No seu primeiro ano escolar, um passeio promovido pela escola pública os levou à Concha Acústica de Brasília. Uma concha acústica gigantesca! Parecia com uma caverna cheia de ondulações, da qual, ia se afunilando, toda feita de concreto, vários instrumentos! Ali seria realizado uma grande Orquestra Sinfônica. Esse menino vivia ali um dos seus sonhos de criança conhecer o maestro Silvio Barbato. Nesta visita, o menino sonhador e as pessoas presentes tiveram um grande momento onde ele ficou impressionado e emocionado com iniciativa educativa e inclusiva. Neste dia, Silvio Barbato, o maestro que, quebrando todas as regras, permite que todas as pessoas cheguem perto para conhecer e tocar nos instrumentos. Foi o gesto mais nobre e inclusivo que ele e os demais presentes vivenciaram, momento carregado de carinho e emoções profundas. N’outro passeio, onde a Biblioteca Braile foi a um concerto no Sesi de Taguatinga/DF, o maestro ficou surpreso com a presença do menino, momento em que eles se conheceram. O maestro então convida-o ao palco para tocar duas músicas e ser acompanhado pela orquestra. Logo veio uma euforia e alegria que não tinha tamanho. Um sonho vivido porque maestros sensíveis e humanos permitiram incluir na sua história pessoas com deficiência visual que foi muito além do imaginário e humanitário. Memórias que foram vivenciadas, transformadas em realidade. Um menino que realizou seu sonho de criança, porque ele sonhava um dia poder tocar um instrumento e poder vivenciar isso e anos depois com um músico, maestro inclusivo. E a amizade permanece até hoje. 16. Dupla Sidney e Girlane - O que a memória continua enxergando Aos quarenta anos, aquele rapaz começava a perder a visão. Ainda enxergava vultos, mas precisava aprender outra maneira de estar no mundo. Como continuar a vida quando os olhos, pouco a pouco, deixavam de mostrar o caminho? Foi então que conheceu, em Taguatinga, a “Biblioteca Braille Dorina Nowill’. Ali encontrou jovens e adultos com DV, professores, voluntários e, ainda, amigos. Ganhou reglete, punção e papel para escrever em Braille. Enquanto aprendia, ouvia: — Rapaz, espere que você ainda vai ver muita coisa que não enxerga. Então a visão se perdeu completamente. Mas por meio da cultura inclusiva do DF, a cegueira não o fez paralisar. A cultura o colocou em movimento. Foi aos museus, às bibliotecas e às atividades literárias. Conheceu lugares que talvez nunca tivesse imaginado conhecer. E, enquanto recebia apoio, também apoiava os amigos e outras pessoas. Completava, assim, aquilo que seu coração sempre lhe pedia. Sem poder registrar tudo como antes, encontrou na voz outra forma de escrita. Gravava as experiências, as histórias. Foi gravando, gravando, gravando, até perceber que aquelas memórias não deveriam permanecer apenas com ele. Guardou-as em um pen drive e decidiu transformá-las em livro. Nesse momento aquele rapaz ganhou um nome... Hoje compreendo que cheguei à biblioteca Braille tentando aprender a viver com a perda visual e encontrei muito mais. Encontrei gente, o Baille, as ruas, os museus, a dança, o teatro e a literatura. Encontrei também a mim mesmo. Assim se constrói uma cultura inclusiva: quando alguém deixa de ser apenas quem recebe apoio e passa a participar, criar e compartilhar. Aqui em Brasília, eu vivi e vivo em movimento e construo memórias. Hoje já não enxergo os vultos daquele começo. Mas continuo vendo pelas lembranças, pelas vozes, pelas histórias, pela literatura... Meus amigos estavam certos: — Rapaz, você ainda vai ver muita coisa que não enxerga. Há coisas que os olhos deixam de ver, mas a memória continua enxergando. 17. Dupla César e Lourdinha - A cultura inclusiva em prol da felicidade Ao escrever a Monografia - Artes Visuais para Pessoas com Deficiência Visual, em 2009, percebi a importância de conviver com os colegas de deficiência, entendendo minhas limitações, capacidades e possibilidades, como PCD. Quando assumi a direção da ABDV - Associação Brasiliense de Deficientes visuais – em 2006, lutamos por direitos, valorização e protagonismo, desenvolvendo projetos e metodologias, orientados por debates e experiências internas. A partir disso, a história tomou corpo, destacando, dentre várias conquistas, o 1º Festival do Cinema Brasileiro com audiodescrição, realizado em 2008. Em 2009, o então Secretário de Cultura autorizou a realização da nossa 1ª oficina de escultura para cegos da ABDV, no espaço Renato Russo. Experiências desafiadoras foram nos ajudando na identificação de uma cultura não-visual, praticada de forma anônima, espontânea, oralizada, baseada na forma com que as pessoas com deficiência visual se relacionam com o mundo. Em alguns eventos, com a presença de pessoas com deficiência visual, identificamos a necessidade de locomoção e de interação, sob a ótica de quem é cego. Essa percepção orientou a confecção de peças em Braille e tinta ampliada, para que as pessoas com deficiência tivessem autonomia em suas locomoções, seguindo a lógica do nosso lema: - “Nada Sobre Nós, Sem Nós”. A tecnologia, também foi avaliada, proporcionando uma inclusão séria, promotora do crescimento intelectual daqueles que veem em suas limitações a motivação plena de vida. Frequentemente nos deparamos com publicações, inclusive institucionais, que consideram um ambiente inclusivo, apenas por “aceitar” a presença, matrícula ou ingresso de pessoas com deficiência. Defendemos a criação de espaços de cultura não-visual, privilegiando a nossa forma de aprender, de interagir, de se movimentar frente ao mundo para ser feliz. 18. Dupla Regina e Keula – Dançando a vida Uma história feita de coragem, dor, recomeços e criatividade por meio da arte corporal. Aos 37 anos, ela começou a perder a visão de forma rápida e irreversível. O diagnóstico médico veio como um choque: não havia tratamento. Sem entender o que sentia e sem encontrar compreensão ao seu redor, mergulhou em um período de tristeza e isolamento. Já era mãe de dois filhos quando, aos 39 anos, descobriu uma nova gravidez — em meio à perda da visão. Foi uma gestação difícil e cheia de medos. Nos primeiros meses, não conseguia enxergar direito o rostinho da filha. Mas, com o apoio da mãe e dos filhos, enfrentou tudo com coragem. Enfrentou também o preconceito por ser mãe e cega — olhares julgadores, dúvidas, desconfianças — e ainda assim seguiu firme, guiada pelo amor à filha. A dança surgiu como um resgate de si mesma. Conheceu o trabalho de coreógrafa e professora especialista em Danças Folclóricas, com grande ênfase na Dança Cigana. Dessa forma, encantou-se e começou a praticar dança cigana por orientação médica e reencontrou um sonho da infância. As roupas, os movimentos, os palcos, as outras dançarinas — tudo isso trouxe de volta a autoestima, a alegria e a sensação de que é possível, sim, ser feliz apesar das limitações. Hoje, mesmo com a deficiência visual, ela segue em frente: dançando, aprendendo e se reinventando, com aulas adaptadas à sua condição de cega. Já fez apresentações em palcos de teatros e se apresentou por diversas vezes em parceria com a filha caçula demonstrando o amor incondicional de mãe e filha. Sua história é prova de que, com coragem e apoio, é possível transformar dor em força e recomeçar quantas vezes for preciso. Ela segue sua vida interagindo com movimentos culturais como a Academia Inclusiva e, com criatividade, faz da sua vida momentos de pura diversão e alegria, disseminando a notoriedade da inclusão e demonstrando que pode transformar desilusão em motivo para viver e ser feliz ao lado de sua família e pessoas inclusivas na sua vida. 19. Dupla Valdeli e Mary – Outros jeitos de enxergar Não enxergo de longe. De perto, tenho apenas 2% de visão e, para caminhar com segurança, uso uma bengala. Não vou falar das dificuldades, porque minha história é cheia de conquistas. Uma delas aconteceu na Biblioteca Braille. Ali achei amigos, estudos, encontros e novas experiências. Descobri que o conhecimento não depende tão somente dos olhos e que cada aprendizado pode se transformar em uma vitória. Os áudios também abriram portas. Passei a conhecer histórias, lugares e informações. Percebi que ouvir com atenção também é uma forma de enxergar. No museu, as descrições dos objetos fizeram minha imaginação trabalhar. Eu ouvia o que era narrado e, dentro de mim, criava as imagens. Compreendi que quando os olhos não alcançam, a imaginação pode ir bem além. No planetário, vivi outra experiência maravilhosa. Enquanto falavam sobre cometas e satélites, minha mente viajava pelo infinito. Eu não podia vê-los, mas imaginava sua beleza. No parque da cidade, descobri a riqueza dos sons. O canto dos pássaros passou a ter um significado especial para mim. Aprendi a prestar atenção naquilo que às vezes passa despercebido aos olhos. Também enfrentei desafios na Faculdade de Gestão Pública. Nem sempre foi fácil, mas cada dificuldade vencida trouxe uma sensação de superação. Trabalho na Secretaria de Saúde do DF, em uma Policlínica, no atendimento da saúde mental. Eu me sinto muito útil no que faço. Hoje sei que enxergar não é apenas olhar. É poder ouvir, sentir, imaginar, aprender e continuar caminhando, mesmo quando tudo parece difícil. Minha bengala me ajuda a encontrar o caminho. Meus ouvidos me ajudam a conhecer o mundo. Minha imaginação me leva a lugares que meus olhos não alcançam. Assim sigo minha caminhada, percebendo que existem muitas maneiras de enxergar. Porque, quando os olhos não conseguem ver, a vida encontra outras formas de ser vista. 20) Dupla Simone e Cândida - Aprendizado e Nova Visão Ao chegar em Taguatinga DF para residir, não conhecia ninguém. Logo em seguida eu conheci o Projeto Biblioteca Domiciliar Mala do Livro Neusa Dourado, da Secretaria de Cultura do GDF. Montei uma Biblioteca Mala do Livro na minha casa, com o incentivo da Diretora Maria José, para atender a comunidade das quadras em torno. Inscrevi-me em um curso sobre Bibliotecas e fui selecionada para realizá-lo na Biblioteca Braille Dorina Nowill BBDN. Eu ainda não conheçia a BBDN. Lá, então, conheci a Noeme, a Neuma (in memoriunn), a Dinorá, a Leo - maravilhosa, a equipe e mais alguns PCDVs. Foi emocionante o contato inicial com o pessoal da biblioteca e neste encontro foi o início do meu entrosamento com as pessoas com deficiência visual. Eu tinha feito, anteriormente, alguns pequenos contatos com o pessoal da Lojinha da ABDV - Associação Brasiliense de Deficientes visuais, na Rodoviária. Mas foi na BBDN que as raízes se aprofundaram, criando um tronco firme de uma árvore com muitos galhos resistentes, floridos e frutíferos. Nos encontros, eu ficava muito encantada com as pessoas, com a delicadeza, com a vivacidade, com a alegria e com o entusiasmo com que eles participavam das atividades, tudo era bem festejado, existia uma motivação muito grande. Eram um exemplo pra gente que, às vezes, faz as coisas correndo sem valorizar muito. Percebi como isso era importante, para mim e para todos... Esse contato com as pessoas era algo que me fazia muito bem. Ver como agiam e procediam diante de tantos desafios, de coisas que prá quem enxerga, mesmo enxergando pouco, como no meu caso, se tornava fácil e ver que eles mesmo assim, com as dificuldades diárias que enfrentavam permaneciam com todo esse entusiasmo e não viam problema para se deslocar, chegar na biblioteca, pegando até ônibus sozinho. Isso tudo era muito motivador A Biblioteca Domiciliar Mala do Livro Projeto Neusa Dourado aproximou-me da Biblioteca Braille Dorina Nowill de Taguatinga DF. E eu permaneci até o fim da minha residência em Brasília, envolvida com as duas. Na Mala do livro como voluntária. Na BBDN frequentando num mixto entre voluntária e associada. Ao mesmo tempo que frequentava como Deficiente visual eu ajudava como voluntária, em momentos de necessidade, conduzindo alguém, orientando, atendendo no que era necessário para os colegas e amigos Deficientes Visuais. Os projetos da biblioteca, sempre, tiveram muita inclusão para as pessoas. Convivendo com a Noeme, a Neuma e vários outros foram anos de amizades maravilhosas que floresceram... elas foram um grande exemplo de persistência, resiliência, coragem e motivação para que eu, também, participasse e fizesse várias ações ligadas a leitura, a escrita, a inclusão e ao aprendizado sobre deficiência visual. Foi na convivência e entrosamento com os projetos de incentivo a leitura e escrita na BBDN, que desabrochou em mim o gosto e o interesse pela escrita. Vários frutos vieram. E alguns dos frutos, legados de toda essa convivência é que atualmente tenho participação em 3 Antologias. A minha gratidão é imensa, por tudo o que vivi nesses anos. 21) Dupla Suzy e Márcia – Ecos do Amanhã Talvez o seu mundo não mude quando o mundo do outro estiver acessível também ao seu. Talvez você não entenda como é ir a um concerto, evento e qualquer espaço público e não poder desfrutar daquela experiência por completo, porque parte de você sente-se incompleto. Um som, um cheiro, uma visão... a vontade de tocar e não poder. O direito de ir e vir, mas não ser disponível. Todo ser humano nasceu para viver as mais completas experiências. E em qualquer cidade a acessibilidade deve ser tratada não como projeto social de campanhas ou de exceção, mas como deveres sociais contínuos. Proporcional qualidade de vida não é um privilégio ou favor, mas humano. É humano ver o outro nas diferenças e na dor. E humano enxergar aquilo que o outro não consegue ver. E é humano entender que nem todo mundo possui as mesmas habilidades porque, simplesmente, somos humanos e não máquinas. Desde concertos, como o Baú do Rock, ou outros eventos em espaços públicos, Brasília tem crescido não apenas em infraestrutura, metrópole, mas como referência em qualidade a pessoas com deficiência física. Imagine que somos uma grande tela energética e todos precisam dar as mãos para que o caminho seja iluminado. Agora, imagine que aquele que chega em algum desses espaços e não tiver a acessibilidade que mereça.

13/09/26

Depoimentos de juradas do PIEI 2026

Por Arleni Batista, do RJ: GRATIDÃO POR PARTICIPAR COMO JURADA DO 6º PIEI Receber o convite para participar como jurada do 6º PIEI – Prêmio Internacional de Espírito Inclusivo foi, para mim, uma honra e uma grande responsabilidade. Avaliar os textos produzidos a partir do tema “Vivências e Memórias que constroem a Cultura Inclusiva no Distrito Federal” foi uma experiência muito especial. Cada texto trouxe histórias de vida, desafios, superações, memórias e diferentes formas de enxergar e viver a inclusão. Procurei realizar essa tarefa com respeito, sensibilidade, atenção e, sobretudo, com imparcialidade, observando não apenas a história contada, mas também a maneira como cada história foi transformada em narrativa. Todas as vivências apresentadas possuem seu valor e merecem ser reconhecidas. Como jurada, procurei olhar para a construção do texto, a qualidade da escrita, a força literária, a relação com o tema, a originalidade e o impacto que cada narrativa poderia deixar no leitor. Agradeço profundamente pela confiança e pela oportunidade de contribuir, ainda que de uma pequena forma, para uma iniciativa que valoriza a cultura, a acessibilidade, a inclusão e, principalmente, o protagonismo das pessoas. Saio dessa experiência ainda mais consciente de que incluir é abrir caminhos, reconhecer talentos, respeitar histórias e permitir que cada pessoa tenha o direito de participar, criar e deixar sua marca. Minha gratidão à organização do PIEI pela confiança e a todos os participantes que compartilharam suas memórias e experiências. Foi uma honra fazer parte desse momento. Gratidão, respeito e reconhecimento. Mara Parrela, dos Países Baixos